(Apesar de falarmos sobre gatos, as informações são válidas também para viagens com cachorros)

Eis a situação: um casal (nós), com essa vontade louca de viajar o mundo todo, resolve adotar duas gatas paraplégicas, que sem nossa ajuda não fazem nem xixi nem cocô, ou seja, não podem ficar com ninguém além de nós, muito menos sozinhas; o casal decide então passar um tempo viajando na Europa (com as gatas, claro), e descobrem que as informações na internet sobre como viajar com animais para a Europa é pobre e crua. O que sabíamos é que elas precisariam fazer um exame chamado sorologia antirrábica, mas daí a saber como, quando, onde e por quê... Pufff, nem ideia. Se dependêssemos dos órgãos oficiais ou das informações prestadas pelas companhias aéreas, estávamos, com o perdão da palavra, f#didos. O que nos salvou (gloriosa Paula) foram alguns poucos blogs com relatos pessoais, esses sim com informações valiosíssimas. Com esses posts correndo no sangue, nós começamos então a preparar nossas gatas para a viagem com cinco meses de antecedência à data planejada para partir. E vou te dizer: quase não foi suficiente.

Eu, Rafa e Fran, pegando carona na beira da estrada

Caso você esteja pensando em se mudar com seu bichinho, talvez viajar com ele em algum momento da sua vida, se prepara que o bolso vai pesar, vão rolar algumas noites insones e o nível de estresse pode subir. Mas não deixe de levá-los, porque apesar de burocrático e longo, o processo não é um bicho de sete cabeças, e você consegue fazer sozinha(o) sim! E simplesmente não dá para abandonar essas coisinhas peludas né?

Antes de explicar o passo-a-passo, vou tentar explicar o que é a sorologia: é um exame que faz a contagem dos anticorpos que neutralizam o vírus da raiva no organismo dos nossos bichinhos. Ele é necessário para entrar em vários países onde a raiva foi extinta: toda a Europa, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, etc (mas atenção: o processo de entrada dos bichinhos na Austrália, Nova Zelândia e Reino Unido são diferentes do da UE, apesar de terem em comum a sorologia!). O sangue é colhido, passa por uma centrifugação onde o soro é separado do sangue, e é a partir desse soro que o exame é realizado. Entendeu mais ou menos? Dúvidas nos comentários que vamos fazer o possível para esclarecer :)

Antes mesmo de comprarmos as passagens, a gente já estava pensando em viajar em novembro/2016. Já sabendo que o passo a passo demora, começamos a preparar as gatas em junho/2016. A primeira coisa a se fazer é: aplicar o microchip. Não adianta vacinar e colocar o microchip depois e achar que vai estar tudo bem. A Fran já era vacinada na época que aplicamos o microchip nela, mas tivemos que vacinar de novo para fazer o exame. O por quê eu não sei, só sei que das informações disponíveis no site do Ministério da Agricultura, essa está grifada e em vermelho, ou seja, melhor seguir. O microchip precisa ser padrão internacional, o que colocamos nelas é o Virbac. O veterinário vai aplicar o microchip e preencher um cadastro no site. Aí você vai lá e complementa com informações do seu bichinho. O microchip NÃO é um localizador, é como se fosse a identidade dele; caso ele fuja e alguém o encontre, pode ler o microchip dele para encontrar as informações do dono e devolver a você, por isso acho importante atualizar o cadastro no site. É, eu sei que minhas gatas são paraplégicas, mas vocês nunca viram a Fran correndo na hora de fazer o xixi, nem a Flor correndo atrás da Fran, se não vocês não estariam aí questionando se realmente preciso me preocupar com a fuga delas haha

Fran chateada porque não vamos morar na Cidade Luz

O segundo passo é vaciná-los contra a raiva. Vacinas de campanha de vacinação da prefeitura NÃO são válidas, portanto já leve seu bichinho ao vet. Então, no dia 28 de junho nós levamos a Flor para colocar o microchip, e no dia 29 levamos as duas para tomarem a vacina antirrábica. Atenção: somente após 30 dias da vacinação é que você pode seguir para o terceiro passo, que é a coleta do sangue para a sorologia. Esse intervalo é para que a vacina aja no organismo e o nível de anticorpos esteja alto. Para entrar na UE, o título sorológico do animal precisa ser igual ou maior que 0,50 UI/mL.

Nesse intervalo, nós compramos uma bolsa flexível para ver como elas se portariam dentro e fizemos uma viagem de carro para São Paulo. Honestamente, tenho um orgulho imenso das minhas gatinhas <3 Elas foram quietinhas, observando a estrada, dormiram muito, ficaram muito comportadas! Não enjoaram, não reclamaram e quando chegamos no hostel, cheiraram o quarto um pouco e depois já estavam se sentindo em casa! Filhote de mochileiro, mochileiro é! Para a viagem para a Europa, nós compramos duas bolsas Sherpa Bag pela Amazon, mas ainda não chegou, a gente atualiza quando estiver aqui :)

Gatíneas no Hostel Blue House em SP (a bolsa que compramos para testar é a da esquerda)

E aí, dia 29 de julho fomos para o terceiro passo: a coleta do material para envio ao laboratório. Aqui no Brasil, apenas um laboratório é credenciado pela União Europeia para a realização desse exame, o Laboratório de Zoonoses e Doenças Transmitidas por Vetores do Centro de Controle de Zoonoses que fica em São Paulo. Se você mora em qualquer outro lugar que não SP, é preciso encontrar na sua cidade uma clínica/laboratório que faça a coleta e que envie para o CCZ (Centro de Controle de Zoonoses). Somos do Rio de Janeiro, e quem fez a coleta foi a veterinária de confiança das gatinhas, a dra. Samantha Lobo Christófaro. Ela enviou para o IPEV, um laboratório do RJ que faz a centrifugação e envia para São Paulo. Ela nunca tinha feito, e não sei se vai voltar a fazer; ela não cobrou nada da parte dela, pagamos apenas o envio do laboratório e ao próprio laboratório. MAS aí é que começa a pemba que enfrentamos, tanto estresse da nossa parte quanto das gatinhas: a primeira amostra foi colhida da pata delas, enviada no gelo para o IPEV, que centrifugou e descobriu que a amostra estava hemolisada. Se antes a gente não conhecia nenhum termo médico, saímos dessa experiência craques em patologia felina haha (mentira!). O que aconteceu foi: ao extrair o soro do sangue, ficou um rastro de hemácias no soro, o que não é aceito pelo CCZ. Pânico, confusão e gritaria. No dia 03 de agosto levamos as gatinhas novamente ao consultório para nova coleta, dessa vez diretamente da jugular delas. Eu já estava uma pilha de nervos porque, ansiosa como sou, já tínhamos comprado as passagens para o dia 14 de novembro, então os exames precisariam dar certo, no máximo, até o dia 13 de agosto, por causa da quarentena de noventa dias (calma, vou chegar lá). Pois bem, quando a veterinária disse que ia ser da jugular, quase pirei. Que pena dos meus bebês! Mas antes isso do que elas (e consequentemente, toda a família) não embarcarem. Fomos, e para minha surpresa, tirar sangue da Fran foi rápido, limpo e tranquilo. Quando chegou a vez da Flor minha gente, não se conseguia segurar a bicha nem por um decreto. Éramos 3 contra UM FILHOTE PARAPLÉGICO QUE USA FRALDA e ela nos venceu. Foi tirado da pata então, com muito custo, e mesmo assim, depois que veterinária tirou a agulha da pata dela, a Flor deu um jeito de se soltar e espirrou sangue pra tudo quanto é lado. Lembro vagamente do sangue na minha camisa antes de desmaiar. Mentira haha não cheguei a desmaiar nem voou sangue na camisa, mas rolou teto preto fácil, a pressão foi no chão, e foi preciso atenção do marido e da vet pra controlar a Flor e a mim! Péssima mãe!

Depois disso tudo, há de se crer que tudo deu certo né? Não deu. A amostra da Fran estava lipêmica (com gordura) e a da Flor hemolisou de novo (provavelmente por causa do estresse na hora de colher). A dra. Samantha então pediu um favor a um amigo que trabalha no CAD, que tirasse o sangue delas e fizesse a centrifugação na mesma hora, para em caso de hemólise, colher novamente. Só que essa informação chegou para ela no dia 12 de agosto, de manhã. Era uma sexta-feira, faltando três meses e dois dias para nossa viagem. O soro da Flor saiu límpido, lindo e claro; o da Fran saiu rosado. Não pode. Quase chorei. Tiramos sangue de novo, centrifugaram de novo: mais rosa ainda. Desistimos. Enviamos as amostras assim mesmo para o CCZ e começamos a pesquisar quanto pagaríamos para remarcar o voo (U$160). Para nossa surpresa, o soro mesmo rosadinho foi aceito pelo CCZ, nos 45 do segundo tempo e o resultado dos exames foram: Fran 4,0 e Flor 0,68 (raspando!).

Depois da coleta, o quarto passo é aguardar 90 dias em quarentena. Essa quarentena não é nada mais do que não sair do país com seu animal. Por favor, atenção a esse prazo: o animal não pode viajar para a UE com menos de 90 dias após a coleta do sangue para a sorologia. Se você for viajar bem depois desses 90 dias, não tem problema; a sorologia tem duração ad eternum, contanto que você revacine seu animal corretamente todos os anos.

Os passos finais contam muito com organização e atenção a datas. No correr dos 90 dias da quarentena, entre em contato com a Superintendência Federal de Agricultura do seu estado para agendar a concessão do Certificado Zoosanitário Internacional - o CZI, basicamente o documento mais importante para sua viagem com seu pet, o motivo pelo qual vivemos tudo isso até aqui. No Rio de Janeiro, o agendamento é feito pelo telefone (21) 3398-7072, de segunda a sexta, de 8h às 16h. A concessão vai ser agendada na unidade da Vigiagro mais próxima a você (geralmente no aeroporto internacional da sua cidade), e no dia da entrevista, você vai precisar levar: o resultado da sorologia, a carteira de vacinação, certificado do microchip e atestado de saúde veterinário. O atestado precisa ser emitido no mínimo três dias antes da entrevista na Vigiagro, contando o dia da emissão. Após a concessão do CZI, você tem dez dias para embarcar, que é a validade do documento.

Bolsa de transporte ou kennel

O tamanho varia um pouco de acordo com cada cia aérea, é preciso checar com a escolhida, mas de uma maneira geral:

  • bolsa flexível para a cabine, com as seguintes medidas: 46cm (comprimento) x 28cm (largura) x 24cm (altura);
  • para animais que viajam no porão, o kennel depende do tamanho do animal. É importante que o bichinho tenha espaço para ficar em pé e dar uma volta em si mesmo, que a tranca seja MUITO segura, e o kennel não pode ter rodinhas;
  • tanto para kennel no porão quanto para bolsa na cabine, é preciso ter um tapete higiênico, para que seus animais possam fazer as necessidades sem vazar. ;
  • para os animais que vão no porão, é recomendado comprar um bebedouro tipo de pássaro para fixar na porta do kennel, assim seu bichinho consegue matar a sede durante a interminável jornada.

Compra da sua passagem aérea e reserva do seu animal na cabine ou no porão

Eu queria muito viajar pela KLM ou pela Lufthansa pois foram cias aéreas que tive boas referências sobre viagem com animais, da Paula Abrahão e da Debbie e do Felipe do Pequenos Monstros, respectivamente. Mas encontrei uma passagem muito, mas muito barata pela Edelweiss e acabei cedendo a apelação da economia. O processo para reservar o lugar da Fran e da Flor no avião (elas vão na cabine) foi muito tranquilo: no próprio site da Edelweiss tem a opção "Register Animal", onde entra numa página pedindo dados da passagem (data, local de saída, de chegada) e então, várias opções extras para aquele voo que você pode adquirir: bagagem, assento, e claro, registro do animal. Registrei eu e Rafa, cada um com uma gata, já que só é permitido um animal por passageiro na cabine; pagamos na hora uma taxa de 90 francos suíços por cada uma, e vamos pagar mais 88 francos quando chegarmos em Zurique, onde é nossa conexão. De lá vamos Paris com a Swiss Air, onde não precisamos pagar mais nada.
Atenção: se você for fazer conexão em qualquer aeroporto, se for mudar de companhia aérea, VERIFIQUE se você vai precisar pagar duas vezes pelo embarque do seu animal. A primeira passagem que vimos era pela Latam com conexão em Madrid e seguindo com a Ibéria. Liguei para a Latam e para a Ibéria (pra garantir) e eu teria que pagar a taxa do Rio a Madrid e de Madrid ao destino final. Ia ficar bem caro. Antes de comprar a passagem pela Edelweiss, eu liguei para Swiss Air para saber se precisaria pagar a taxa duas vezes, e a atendente me garantiu que não; comprei a passagem baseada nisso e quando liguei novamente para reservar o lugar delas no voo Zurique - Paris, o rapaz que me atendeu queria me cobrar. Foram 20 minutos falando com ele que eu não iria pagar porque a informação estava indo contra o que tinha sido passado três dias antes; já estava quase abrindo processo (alok) quando o rapaz pediu um tempo e voltou à ligação dizendo que eu tinha razão (ora ora) e que não seria necessário pagar nova taxa.
Pela Lufthansa, você precisa agendar seu animal pelo telefone; pela KLM tem a opção de agendar online, mas como todos os voos de todas as cias aéreas tem um limite máximo de animais por voo, eu recomendo que, mesmo que a opção seja online, entre em contato por telefone após o agendamento para confirmar a reserva.

Caraca, é muita coisa né? Fizemos uma timeline do passo para ver se ajuda um pouco:

Vou deixar aqui algumas recomendações de clínicas que fazem sorologia antirrábica no Rio de Janeiro. Os valores foram consultados entre julho e agosto de 2016:

  • Via Canina (Barra da Tijuca) - R$688
  • Animalia (Barra da Tijuca) - R$680
  • Bicho Bacana (Copacabana) - R$1.000
  • Inpa (Copacabana) - R$800

Vou também colocar aqui nossos gastos, para dar noção de quanto é preciso desembolsar para levar seu pet em uma viagem:

  • Microchip - R$180,00 (colocamos no VetSave, no Alto da Boa Vista; logo depois que colocamos, a Dra. Samantha, que é a veterinária de confiança das gatinhas, passou a colocar também; ela atende no Pet Apoteose, na Praça da Bandeira);
  • Vacina antirrábica - R$50,00 (vacinadas no Pet Apoteose, na Praça da Bandeira);
  • Sorologia - R$450,00 cada uma. Como eu disse, quem colheu foi a dra. Samantha, que enviou para o Ipev, que enviou para o CCZ. Porém não sei se ela fará novamente, por isso recomendo entrar em contato e dar uma olhada nas clínicas citadas acima;
  • Bolsa de Transporte: Flor - R$90; Fran - R$150
  • Reserva das gatinhas no voo - R$650,00 pelas duas
  • Atestado veterinário para concessão do CZI - ainda não fizemos, mas já sabemos o valor, que é de R$70,00 para cada gatinha.

Um valor em média de R$2.450,00 para as duas.

UFA! Depois disso é embarcar e viver feliz vida nova no outro lado do continente. Em breve a gente volta para contar a experiência do embarque e do voo, momentos que eu não estou nem um pouco ansiosa para vivenciar, confesso. Queria piscar e já estar por lá, evitar todo o transtorno que ficar muito tempo fora de casa causa as gatinhas.

Por fim, eu queria agradecer infinitamente pela paciência da dra. Samantha em todo o processo, em que eu mandei mensagem para ela durante horas impróprias do dia, e ela sempre respondia me tranquilizando e apoiando; a Paula Abrahão, que além do post mais que completo do seu blog, que tornou-se minha bíblia, meu livro de cabeceira, também respondeu meus e-mails com muita atenção e simpatia, tirando dúvidas e me orientando quando eu me perdia no processo; também a Debbie e ao Felipe do Pequenos Monstros, que foi o primeiro blog que achei sobre viajar com animais e que me mostrou que é possível sim viajar com nossos babys; e a minha mãe e ao meu pai tô zoando hahaha

E é isso! Se após tudo isso, vocês ainda tiverem qualquer dúvida, sintam-se a vontade para comentar aqui que vou fazer o possível para ajudar todos :) Ah, e quanto a esse processo não tem dúvida boba, tá? Qualquer questão é válida!

E se você ainda acha isso tudo muito confuso e precisa de ajuda profissional, entre em contato através do planejador do V de Viagem que tomamos conta da parte burocrática por você!